"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Com ou sem educação, amo os dois!

Dividida entre a vida e as raízes, a ponte aérea Vitória e Porto Alegre já é algo familiar para mim.  E o que mais me surpreende é que mesmo depois de tanto tempo ainda sofro com o tal choque cultural, as diferenças me incomodam um bocado. Hoje retorno do RS, e desta vez com novas experiências na bagagem, as quais me motivaram a tecer algumas considerações, ou melhor, umas poucas impressões que tenho sobre Porto Alegre-RS e Vitória-ES. Eu tenho propriedade para isso, vou revelar um nebuloso segredo, nasci e vivi 18 anos no RS e já estou rumo a 13 anos em território capixaba.

Preciso narrar um episódio para explanar melhor as ideias. Quinta-feira passada, um dia bem atípico para mim, por dois motivos, o primeiro me faz escrever agora. Andei de ônibus municipal na grande Porto Alegre, por três vezes e carregando malas em uma delas. Não me recordo quando foi a última vez que havia feito isso. Não, isso não é privilégio, não andar de ônibus. Sim, carro facilita muito a vida da gente, mas como tudo na vida tem o lado bom e o ruim. Mas hoje eu vou falar da parte que me deixou satisfeita em andar de ônibus.

Frequentemente a falta de educação, infelizmente, é motivo de muitas discussões, críticas, cobrança de melhorias e investimentos por parte da população aos governantes, enfim, há quem justifique que a falta de um curso superior ou até mesmo de boas condições financeiras, seja motivo para tal. É polêmico! Eu já defendi em outras oportunidades que quando o assunto é educação, essa responsabilidade não deve ser única do governo, dos professores, não esta atrelada as boas escolas e nem ao saldo da conta bancária. Educação não significa apenas mapas geográficos, regras de física, equações de matemática e o uso da crase (...) Falo do básico,  aquela que vem de berço: o velho e esquecido “bom dia”, o “muito obrigada”, “por favor” e “com licença”, eu posso afirmar, isso não está vinculado as carências  e dificuldades acima citadas.


Estou ambientada a lugares que são frequentados por pessoas que julgo cultas, grande parte com curso superior, bem empregada, que reside em bairros de classe média ou média alta, que tem oportunidade de viajar para diversos lugares, e eu nunca me acostumei com a dificuldade que muitas dessas pessoas têm em praticar essa tal educação. Quantas vezes eu já desejei bom dia no elevador lotado e não tive resposta, pedi licença e a pessoa nem se movimentou, deixei algo cair e ninguém me avisou ou foi gentil para resgatar – Infinitas! Devia estar acostumada, às vezes tento me convencer que é culpa da falta de tempo, o brasileiro corre cada dia mais, sempre fazendo tantas coisas que talvez não sobre segundos para essas gentilezas. Mas, tive a oportunidade de mudar de opinião.

Foi subindo e descendo de ônibus que fiquei surpresa com algo que não deveria me surpreender.  As pessoas não só desejavam bom dia ao entrar no ônibus, como também agradeciam o motorista ao sair. A moça que estava do outro lado da roleta nem me conhecia e tão rápido se prontificou para segurar minhas bagagens. O rapaz que eu pedi informação ficou preocupado se eu ia descer na parada certa. A senhora que sentou ao meu lado conversou comigo (coisas da vida) e ainda disse que foi uma satisfação me conhecer. Acredite, ainda teve um rapaz que desceu e até um beijo soprou em minha direção. Como não ficar surpresa diante de tanta educação¿ E eu nem estava na Europa, até fazia um frio europeu, mas eu estava em Porto Alegre.

Posso escrever inúmeras páginas sobre as diferenças e semelhanças entre os estados do RS e do ES, são muitas, os dois têm muitas riquezas e oportunidades interessantes para oferecer, e como ocorre em todo país, as mesmas dificuldades, porém, umas mais salientes que outras.

Enquanto aguardava o vôo pesquisei mais sobre esses estados e suas capitais. O Pnud, órgão das Nações Unidas, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada- IPEA, publicou em julho passado o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), mais de 180 indicadores socioeconômicos para 5.565 municípios -, formaram um conjunto de informações básicas e essenciais, que resultou na classificação, concorde-se ou não, sobre as cidades que o Brasil tem de melhor nas áreas de educação, renda e expectativa de vida. Entre as capitais, venceu Florianópolis (SC), seguida de Vitória (ES). O levantamento é feito pela ONU a cada 10 anos, com base nos dados do Censo, do IBGE.
Fiz uma leitura dos dados relacionando os dois estados – RS e ES. Por diversas vezes procurei argumentos que justifiquem eu gostar tanto da minha terra natal, assim como busco os motivos que me fazem ser capixaba de coração. Já sofri muito por ter o coração dividido entre os dois. Então ao analisar os índices, observei que: o ranking desta pesquisa classifica os estados lado a lado, os gaúchos em 6º lugar, seguido pelos capixabas em 7º. Das cidades brasileiras, Vitória é a 4º com os melhores índices, enquanto Porto alegre se classificou em 28۫º lugar, lembrando, o conjunto de renda, longevidade e educação. Para minha surpresa, quando o assunto foi apenas educação, dos cinqüenta municípios classificados com mais alto índice, Vitória ocupou o 4º lugar mais uma vez, enquanto Porto Alegre... Pois é! Não se classificou.

Fiquei espantada, mas logo entendi. A pesquisa não considera a civilidade quanto aborda a educação, o que citei no início desse texto, aquele conjunto de cortesias que visam à harmonia das relações humanas. Óbvio que não! Apenas qualificação, escolas e formação superior. Afinal a capital gaúcha destaca-se, eu diria que em primeiro lugar tratando de civilidade. E ressalto no trânsito a gente vê barbaridades, ofensas voam pelas janelas, mas isso ainda não se compara ao vácuo da falta de prática dessas palavrinhas em Vitória.


Resultado: fiquei mais confusa ainda. Não é possível decidir qual o melhor lugar para viver, é preciso analisar o conjunto e, definitivamente, fica difícil. A única certeza que tenho é de que os dois estados andam lado a lado, então, qualquer que seja minha decisão, o sofrimento não pode ser tão grande.

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