"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

terça-feira, 11 de junho de 2013

FOI TUDO MUITO RÁPIDO



Novembro de 1998  


Quarta-feira passada, Ilson levou a namorada para o Morro Santa Tereza para, juntos, verem a cidade lá do alto. Estacionou o carro. Um garoto aparentando 12 anos surgiu na janela pedindo cigarro. Ilson assustou-se e girou a chave que estava na ignição. O garoto sacou uma arma, disparou contra a medula de Ilson e saiu caminhando normalmente, coisa que Ilson talvez nunca mais consiga fazer. Corre o risco de ficar tetraplégico.



A guinada no destino de Ilson durou menos que o tempo necessário para ler este primeiro parágrafo. Antes do tiro, Ilson levou 23 anos construindo a imagem de um rapaz saudável e de boa índole. Trabalhou mais de um ano como motoboy. Passou cinco meses fazendo tripla jornada para conseguir comprar seu Voyage. Estava namorando há um mês. Bastou um segundo para o pivete desmoronar seu castelo de cartas.



O bem é uma construção de uma vida. O mal, ao contrário, é rápido no gatilho. Um escritor leva um ano para escrever um livro: o crítico vai lá e derruba o cara numa resenha de dez linhas. Um homem trabalha 20 anos numa empresa: a decisão de demiti-lo é tomada numa reunião de meia-hora. Aposentados levam a vida trabalhando e passam longas horas em filas de banco e de hospital: em poucos segundos alguém comunica que terminaram as senhas.



Não é uma guerra justa. O bem se arrasta, se consome, envelhece na tentativa de concretizar-se. Você quer adotar uma criança? Vai ser submetido a entrevistas, vai ter que provar sua idoneidade, vai ter que passar por um teste de adaptação. Você quer matar uma criança? É menos burocrático.



Para abrir um crediário, é preciso comprovante de renda, comprovante de domicílio, consulta ao SPC. Para roubar, não se exigem documentos.



Para subir na vida, é preciso estudar, atualizar-se, ser polivalente, não ter hora para voltar para casa. Ou então passar a perna no colega cdf, deletando todos os seus arquivos: em dois toques o mal é  promovido a gerente.



Para tirar um país do subdesenvolvimento é preciso vários mandatos. Para voltar à indigência basta uma queda vertiginosa na Bolsa. Para construir um relacionamento sólido é preciso anos, para um estupro basta um minuto. Para gerar um filho, nove meses. Para açoitá-lo, é um tapa. Para quitar as prestações do carro, três anos. Para quitar o motorista, três chopes.



Seqüestrar é uma operação mais veloz do que fazer pipoca no microondas. Decepar uma mão com uma carta-bomba é mais instantaneo do que escrever "prezado amigo". Batem-se carteiras num piscar de olhos, provoca-se o coma com socos ligeiros, mal percebemos as maldades transitórias. Foi tudo muito rápido. Por Martha Medeiros