"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Decepção amorosa ortográfica

Escrever errado não é privilégio de ninguém, eu sou craque nas gafes. E quem não tropeça no português? Vira e mexe encontro em meus textos verbos embaralhados, pontos deslocados e falta de concordância. Pode ser mera desobediência à gramática, mas é constrangedor.

Longe de incentivar a ignorância, penso que alguns vacilos são perdoáveis, mas não tem beleza ou tesão que resista a um "ni min" ou então "seje”, é pior que cueca furada.

Internetês pode? “Naum, naum axo fofixx”. Eu abomino essa forma de expressão grafolingüística utilizada por internautas. Em casos de abreviações como: “vc, kbça, bj” até justificam, por simplificar e economizar o tempo. Mas, vamos concordar, esse tal linguajar inventivo, emburrece!

Escritores têm permissão para extrapolar a norma culta. Um dos maiores poetas brasileiros, Mario Quintana, inicia seu poema “Indivisíveis”, da seguinte forma: “Meu primeiro amor sentávamos...”, já Arnaldo Antunes escreveu “Beija eu”, mas isso, é licença poética. Como disse Gilberto Gil, “Não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo em sua lata, na lata do poeta tudonada cabe”. E quem sou eu para discordar.

E o que falar de piadas e contos regionais? “Quirido Inzé, xeguei bão. O pessoá daqui num é cumo di aí. As muié num sum como di aí. To com baita sôdade de Juaninha. Cunheci a fessora na iscola, ela mi leva pra sua caza. Dipois...espaiá afrição. Nuortudia mi insina potugueiz. Beto”. Quando você sabe como utilizar cada palavra, você pode, inclusive, escrever de maneira aparentemente "errônea" - mas que, na verdade, é acertada, já que você quer chamar atenção ou brincar com as palavras. Estamos falando de arte, manifestação estética, ideias e emoções.



Placas do tipo: “vendêsse esta merda”, pode? Bem, se vivemos num país em que poucos estudam e menos ainda lêem, seria exigir muito que este ingênuo comerciante saiba usar o sujeito indeterminado. Pelo menos, ele trabalha, vende, negocia.



Já um jovem bonito, bem relacionado, diplomado, que teria tudo para ser um bom partido, durante uma investida, escreve algumas mensagens: “Saldades de você. Agente podia se ver. Se eu soubesse tinha trago...”. Ao ler esse tipo de peróla pensei: isso dá piada, dá crônica, dá decepção.


Será que ele entendeu minha resposta? “Qualé vamos esperimentar um delisioso drinque ezótico, tezão!”.

O autor desse absurdo e tantos outros não tem o mínimo de intimidade com a língua, quiçá, intimidade com alguém. Isso é o que chamo de decepção amorosa ortográfica.