"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Saudades da Gema

“Como será o amanhã? Responda quem puder...” Quem nunca desejou saber o que será do futuro? Quando o assunto é amor, traduzindo: homens, nós mulheres somos mestres em procurar a resposta, e se possível fosse até mudaríamos o destino.




Quem nunca procurou uma cigana, bruxa, vidente, cartomante ou algo do gênero? Eu tive a minha, muito cedo. A simpática Gema, vizinha de um condomínio que morei algum tempo em Porto Alegre. Para ler a sorte tinha todo um ritual. Roupa branca, incenso, vela, o baralho seboso e o olhar firme da cigana em minha direção enquanto embaralhava as cartas. Corte o baralho – dizia ela. Detalhe: com a mão esquerda. “Vejo um homem em sua vida”. Sempre começa assim. “Vocês brigaram?” Elementar, as mulheres sempre procuram esse tipo de alternativa quando alguma coisa não vai bem. Continuando: “Existe uma pessoa entre vocês...” Loira ou morena? ”Pode ser uma criança”. Nada é exato, mas as damas podem responder, vai depender se der dama de ouro ou paus, se não for nenhuma delas, sorria, a sorte está com você!


Depois de muito suspense ela embaralhava mais uma vez as cartas. “Corte, a felicidade está em suas mãos”. E finaliza: Sim, ele vai ser seu! Uffa! Mas no fundo, eu já sabia. Sempre dava certo no final. A gente procurava as tais leitoras da sorte porque nunca ouviu ninguém contar que foi diferente, elas nos deixavam com esperança, então a certeza das cartas, afinal, elas não mentem, permitia que a vida seguisse o fluxo normal. “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Era muito mais emocionante e romântico.


Hoje, quando sentimos a angústia do esperar acontecer. Quando as perguntas do tipo: Será que o telefone vai tocar? Será hoje ou amanhã? Será que ele tem alguém? Será ele, será? Vamos ao psicanalista. Depois de uma série de perguntas sobre o nosso passado ele vai nos justificar o presente e até ditar o futuro e, para aliviar a ansiedade no lugar das simpatias, lembra? Banho de rosas, um fio de cabelo dele guardado na gaveta das calcinhas e por ai vai, a gente fazia de conta que acreditava e para muitas, coincidentemente, funcionava. Hoje, nos receitam um comprimidinho para controlar a ansiedade e conseguir esperar pacientemente ele nos procurar e caso isso não ocorra, serve também para amenizar a tristeza. Vê se pode, até parece que não gostamos de expectativas, o incerto faz parte do início de um relacionamento. Mas não para por ai, quando as coisas não acontecem como esperamos, voltamos ao especialista, queremos uma explicação, e eles têm. Nossos traumas de infância sempre explicam tudo. Antes, preferíamos acreditar que erramos na simpatia, faltou o Santo Antonio de cabeça para baixo atrás do guarda-roupa.


O mundo mudou, e muito. Ontem desfolhando o bem-me-quer, confesso, senti saudades da Gema.

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