"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rodas da Vida


Adoro essa foto. Para quem não reconheceu o largo sorriso, sou eu sim, sobre rodas. Estava observando, relembrando e analisando a foto e a vida, percebi que passamos boa parte da vida apoiado em rodas.
Quando criança a motoca tinha três rodinhas, assim não corria o risco da filha do seu Rocha cair e se machucar. O pai protegia a cria. Não demorou muito tempo ele começou a ensinar que na vida a gente também cai, mas que é essencial aprender a levantar.
Foi com quatro ou cinco anos que ganhei a minha primeira bicicleta, uma Caloi. Inicialmente ela tinha duas rodinhas de apoio lateral, logo mais, meu pai resolveu me libertar, mas sempre com muito cuidado. Meu velho seguia empurrando até certa altura da rua e conversando. Assim eu tinha a certeza de que não corria riscos, ele estava ali, segurando, me acompanhando. Mas no fundo, a intenção dele era outra, me encorajar, me preparar. Os pais sempre sabem o que estão fazendo.
De repente eu percebia o silêncio, neste momento ele já estava distante, eu já tinha dado algumas voltas sem cair, eu tinha conseguido andar sozinha, sem rodinhas e sem o apoio dele. Era um sentimento breve, mas eu podia degustar a liberdade e a vitória por alguns instantes, até quando o medo tomava conta de mim, era só eu pensar nele, e um monte de areia me esperava depois do tombo. Ao levantar a cara era sempre a mesma e a frase também: Não doeu! Lógico, eu queria continuar a sentir aquele êxtase.
Continuamos diariamente o exercício da libertação. Não foram poucos os tombos, mas com o passar dos anos, sem rodinhas e até sem segurar o volante eu já andava, a partir daí, se eu caísse a minha frase era: Todo mundo cai um dia, levanta e continua, Luciana!
Percebo que até hoje é assim. Estamos sempre com uma base protetora, um suporte contínuo, em diversos sentidos da vida, assim como eram as rodinhas no passado. Quando conquistamos um emprego nos apoiamos em nosso currículo, que aos poucos vamos substituindo pelo novo conhecimento adquirido, mas a experiência anterior é o que nos impulsiona a arrancada. Quando se diz “sim” a um pedido de casamento as rodas podem ser as mais diversas possíveis: o sentimento que move a relação, o contrato, às alianças, os interesses... E se ficamos doentes ou enfrentamos algum problema? O carinho de mãe, os amigos, o médico e o remédio, não são poucos nossos recursos de apoio. Os livros, contos, filmes que assistimos e histórias que contamos, observem que somos amparados em verdades e ficções.


Algumas rodas estarão sempre presentes em nossas vidas. Tratando das rodas de segurança, da estabilidade da bicicleta, essa nós sabemos que lá por volta dos 06 anos já conseguimos nos libertar. E tratando da vida? Quando será a hora de largar da saia da mãe e soltar a mão do pai? Isso não significa dispensar o amor e a proximidade deles. Estamos falando de independência, estamos falando de dispensar aquilo que mesmo por amor e proteção, nos impede de sentir o gostinho da realidade, impossibilita descobrir a nossa capacidade, afinal, enquanto estivermos apoiados não iremos testá-la.
Penso que não devemos esperar que nos empurrem por muito tempo. É importante sentir emoção, correr riscos, medos, desafios, quedas e vitórias. Afinal, uma hora mesmo que você não queira, terá de enfrentar. Quando a vida lhe tirar suas rodas, talvez nesse momento, sua queda seja maior, por nunca ter tentado.
Permita-se cair. Pratique as frases: Não doeu! Todo mundo cai um dia, levanta e continua! Crie a sua frase e, se surpreenda ao descobrir o quanto você pode.