"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Simplicidade é a lembrança mais feliz


Quando as pessoas melhoram de vida, na maioria das vezes, idealizam mudar para cidade grande e comprar uma bonita casa, preferencialmente num bairro nobre. Mas, o que é essa casa bonita? São aquelas jaulas que a cada dia tornam-se mais escassas nas grandes cidades, perdendo espaço para os prédios que também nos oferecem esse sentimento de estarmos enjaulados. Jaula? Sim!  São casas cercadas por altos muros, cerca elétrica, pedaços de vidros, arames farpados e câmeras de segurança. Então, quando essas pessoas pensam em ter seus filhos logo imaginam, ali eles estarão seguros, terão uma infância saudável, com o conforto que os pais nunca tiveram, mas não lembram do principal: da qualidade de vida, da liberdade e do quintal.

Toda vez que volto a uma cidade interiorana me desperta o enorme desejo de por lá ficar. É um resgate às minhas raízes, e para quem sabe o que é pisar numa terra vermelha, no chão batido, soltar pipa, pular o muro fugindo de uma surra da mãe, colocar a bacia embaixo da goteira da sala quando chove, ter uma varanda para brincar de boneca, um porão para o pique - esconde e no fundo de casa aquele velho galinheiro e meia dúzia de galinhas, o forno de barro, uma pequena horta e a casa do cachorro. Quem já pode desfrutar de um pouco disso que estou escrevendo, certamente vai entender o que estou falando e o que estou sentindo.

Nenhuma casa grande, bonita e cheia de segurança é capaz de proporcionar a uma criança o deslumbramento que é ver um galo, logo cedo, subindo no muro para o despertar. Nenhum brinquedo eletrônico poderá reproduzir a sensação alucinante que é segurar na mão o ovo quentinho que a galinha acaba de pôr. É o mistério da vida ali, em um ovo, nas mãos. Nenhum computador é capaz de transmitir o gosto de fazer uma casa na árvore, galho por galho, o prazer de correr atrás do cão que foge na hora do banho. Isso para mim é qualidade de vida ou talvez seja a minha felicidade realista. Conhecer, sentir, viver o mais absoluto prazer da vida e da forma mais simples do que qualquer meio eletrônico ou livro poderá um dia arriscar-se tentar.  
 
Final de semana passado estive numa cidadezinha do interior do Espírito Santo, é a segunda viagem fascinante que tenho a oportunidade de fazer neste último mês. É a segunda vez que me vejo diante de uma casa com um quintal o que me faz comparar os lugares e os tempos. A casa é toda cercada, por árvores, a segurança existe, mas é feita pelo melhor amigo do homem, o cão, o latido avisa quando alguém está chegando. Em uma casa, especificamente, a segurança era feita por um gato, até que ele fosse envenenado. Crueldade! Galos também podem fazer a segurança, e tinha um, o vizinho da família Denadai, este é um baita galo dedicado. Além de avisar quando alguém entrava no seu território ele estava sempre preparado para despertar a vizinhança, a qualquer hora do dia. Se você acorda às cinco da manhã lá está o simpático galo a cantar, mas se por acaso você curtiu a festa na noite anterior e vai dormir até o meio dia, fique tranqüilo, nosso querido vizinho já sabe e, ele espera a hora, mas não falha. Ô galo animado! Tão animado como a vida no interior.

Comparando os tempos, lembrando e relembrando esses momentos, impossível não regressar lá na minha infância quando pude conhecer o gosto de verdade de viver tudo isso e mais um pouco. Assim eu percebi que essa simplicidade é a lembrança mais feliz, simples e barata da minha vida. Percebi que posso olhar o mundo com superioridade.  A superioridade de quem tem um tesouro guardado na memória, no peito, um tesouro que poucas pessoas sabem e que eu indico a todos os “enjaulados” dar-se à oportunidade de conhecer.

3 comentários:

  1. Querida Lú, faço das suas palavras as minhas. Aliás, todos os dias em meu mister na Vara da Infância e da Juventude, quando vejo todos aqueles menores envolvidos com o tráfico, penso: que saudade do tempo em que as represálias aos menores tinham por origem brincadeiras perigosas como pular muros ou andar sobre os mesmos. Grandes beijos, e parabéns pelo blog.

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  2. Obrigada Kinha! Impossível não sentir tristeza diante dessa cruel realidade, fruto dessa desigualdade que vivemos. Nunca esqueço o trecho de um texto que dizia o seguinte: " Um dia ensinaram a criança pobre a sonhar acordada. Bastava cheirar uma garrafa de plástico de onde saída um cheiro forte e enjoativo. Desde então, a criança pobre sonha acordada e quando dorme, tem pesadelos".
    Volte mais vezes por aqui!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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