"Só não se perca ao entrar no meu infinito particular"



Prazer, Lu.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Calça Jeans


Carnaval de 2010, fiquei de fora da festa pagã, quase cometi o autoflagelo. A televisão como melhor aliada, ou seria pior?! Confesso que para quem sempre participou da festa dos sem censura, das purpurinas e lantejoulas acreditei que seria depressivo acompanhá-la através da mídia, mas, sobrevivi a esta esperada tortura, sem fantasia e sem fazer uso dos controlados. Sem fantasia? Eis que me surge esta interrogação. Foi o que resultou ao ler “A Gazeta” nesta terça-feira de carnaval.

Todos os desfiles, trios e os vestígios deste feriado prolongado eram televisionados. Ali, no jornal impresso, eu não esperava encontrar bons negócios ou oportunidades. Observei que o nosso velho companheiro do café da manhã e privadas fica menos espesso neste período, afinal até quem não gosta da festa pagã, vai de carona na folga por ela proporcionada e, o que há de interessante fica para depois do carnaval, inclusive, aqui no Brasil, costumam dizer que o ano só se inicia após o término deste espetáculo.

Mas, a resposta estava lá, no Caderno Dois, na crônica de Jeanne Bilich – a “dissidente confessa do reinado de Momo”. Eu precisava saber o que minha audaz colega havia reservado para aquele dia e, lendo “De Máscaras e Fantasias”, descobri.

A máscara poderá cair, mas preciso desabafar. Descobri que há muito tempo eu vivo permanentemente fantasiada. Carrego as fantasias epidérmicas, piercing umbilical e os turbinados, mas não “ameaçadores” silicones. Aderi à tribo dos antes vistos como marginais, para me diferenciar nesse mundo em que todos (devem) se parecer. A tatuagem é como uma marca pessoal. Apliquei no umbigo, como diria minha avó - um lindo brinco -, para que pudesse ser ainda mais visível a boa forma que desfilava, ou pensava. Quanto aos mísseis turbinados, esses, quando descobri que a Amélia de Ataulfo e Mário Lago já tinha perdido espaço para as Sheilas e Feiticeiras aperfeiçoadas pelos discípulos de Ivo Pitanguy, não resisti.  Por que não aderir ao clube das mulheres de verdade, aquelas que têm vaidade?

Calma colega! Não irei me despir aqui! Mas refletindo sobre todos os acessórios dos quais sou adepta ou quem sabe um dia me inspire a ser, observei que: sejamos nós do clube dos ante ou pós-modernismo, vivemos diariamente fantasiados. Vou lhe citar um único exemplo: a calça jeans. Quer uma fantasia mais democrática? O que nos diferencia são os enredos que contamos. Uns para esconder outros para divulgar, mas quem não usa?  Vira e mexe eu me pego vestida tipo: embalada a vácuo. Sim! É o que proporciona a mistura jeans e strech. Atrás da ilusão de ótica que esta fantasia denominada jeans pode causar, escondemos nossas gordurinhas localizadas, celulites, pernas finas, a bunda avantajada, o corpo definido, coisas que: “É segredo, não conto a ninguém....” e, nem o ilusionismo de Unidos da Tijuca poderá mudar.

Agarro-me na certeza de que neste país carnavalesco em que vivemos não recebemos apenas o passaporte do “vale nigth”, aqui, vale tudo!


Em Resposta: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/03/613207-cronica.html
16/03/2010 - 00h00 - Atualizado em 16/03/2010 - 00h00

Crônica

A Gazeta

Jeanne Bilich
jbilich@uol.com.br

Ecos do carnaval

Já navegamos nas águas de março, mas ecos do carnaval ainda me chegam. Não o som dos atabaques e tamborins mas, sim, repercussões – é no plural, mesmo! – da crônica “De Máscaras e Fantasias”, publicada na terça-feira (16/02) de carnaval.

Da jovem Luciana Barth recebi, via-e-mail, a “crônica da crônica” que reproduzo pinçando parágrafos: “A máscara poderá cair, mas preciso desabafar. Descobri que há muito tempo eu vivo fantasiada. Carrego as fantasias epidérmicas, piercing umbilical e os turbinados, mas não “ameaçadores” silicones. Aderi à tribo dos antes vistos como marginais para me diferenciar nesse mundo em que todos (devem) se parecer. A tatuagem é como uma marca pessoal. Apliquei no umbigo, como diria minha avó – um lindo brinco – para que pudesse ser ainda mais visível a boa forma que desfilava, ou pensava. Quanto aos mísseis turbinados, esses, quando descobri que a Amélia de Ataulfo e Mário Lago já tinha perdido espaço para as Sheilas e Feiticeiras aperfeiçoadas pelos discípulos do Pitanguy, não resisti. Por que não aderir ao clube das mulheres de verdade, aquelas que têm vaidade?”

Parabéns pela bela crônica!.. E pela delicadeza: “Isso não é um protesto, é uma forma diferente de ver.” Aplausos. Após ler o texto, velha repórter que sou, empreendi pesquisa informal. Consultei, interroguei, telefonei e, claro, incomodei os jovens amigos. Sim, desfruto desse privilégio! Somam mais de dúzia, na faixa entre os 20 e 30 anos. O resultado? Bem, não obtive consenso! Fragmentação. Há os que têm tatuagens, “discretas”, apressaram-se em dizer; os que não têm e não pretendem tê-las; os que cogitam tê-las, mas debatem-se sobre o quê tatuar. Entre os que não têm, o medo do definitivo: “E se eu mudar de ideia, Jeanne?...” Já os que as têm, guardam convicção que as tatuagens – frases, nomes, símbolos míticos ou poéticos – expressam imutáveis valores e afetos.

Dialogando com os reflexivos botões, concluí: sendo a pós-modernidade fragmentada, célere, reino do efêmero, os jovens capturaram o espírito do tempo, filhos legítimos deste zeitgeist contemporâneo. E Baudrillard soprou-me ao ouvido: “Vivemos na cultura do excesso, do exagero. Busca-se uma identidade no vácuo da subjetividade”. Tatuar-se como marca pessoal – como crê a geração da Luciana – implica leitura subjacente do naufrágio da singularidade humana na sociedade de massa. Mais: sinaliza grave crise de identidade!

Cabe ao tatuador e ao cirurgião plástico o resgate da confortável sensação de “ser”. Existir como indivíduo. Doloroso, não sagaz leitor?! Pois, afianço-lhe, Luciana, que sua identidade funda-se na subjetividade expressa na crônica – aí, sua marca pessoal - e não nas tatuagens que lhe fantasiam a pele.

E a discordância final: “Por que não aderir ao clube das mulheres de verdade, aquelas que têm vaidade?”. Seu conceito sobre “mulheres de verdade” abalroa frontalmente com o meu!... Mulheres de verdade, na minha ótica, são aquelas detentoras de comportamentos, valores, caráter, garra e coragem, sendo a beleza física um acréscimo. Detalhe estético.

Jamais a razão determinante que as fez (ou faz) sócias do clube das mulheres de verdade!... Na minha geração, a busca exacerbada pela beleza significava ser objeto sexual e na sua – suponho – patricinha. Paris Hilton. Celebridades efêmeras!... Bem-vinda ao sólido clube dos cronistas que, aliás, o Espírito Santo é celeiro nato e pródigo!...

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